“De onde a gente não espera nada é que não vem nada mesmo”


Fonte: Deputado Pauderney Avelino (AM)

“De onde a gente não espera nada é que não vem nada mesmo”

Foto: Sidney Lins Jr.

A faxina prometida, em alto e bom som, pela presidente Dilma Rousseff, nos setores do governo em que houve denúncias de corrupção, irregularidades diversas e mau uso do dinheiro público apenas começou e, ainda assim de forma tímida e incompleta. A rigor, a limpeza só ocorreu na cúpula do Ministério dos Transportes e na direção do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

Na Valec, a estatal responsável pela construção das grandes ferrovias previstas no Programa de Aceleração do Crescimento, como a Norte-Sul e a Oeste-Leste, foi afastado somente o presidente da empresa, no rastro do escândalo que abalou o Ministério dos Transportes, no início do mês de julho. Investigações da Controladoria Geral da União indicaram desvios de R$ 279,7 milhões na Valec.

A Ferrovia Norte-Sul, uma das obras de maior relevância da Valec, iniciada no governo Sarney (1985-1990), nasceu envolvida em escândalos, a partir da primeira licitação, que, segundo então se apurou, havia sido dirigida e os vencedores eram conhecidos havia meses. A obra está atrasada, seus custos já estão em mais de R$ 5 bilhões, mas a ordem de cima é inaugurá-la integralmente no atual governo. Aliás, a obra, embora atrasada, já tem prontos 85% dos serviços, conforme apurou, na semana que passou a Subcomissão das Obras do PAC que visitou em Tocantins dois trechos da ferrovia (Palmas e Gurupi). O grande problema é que, segundo o Tribunal de Contas da União, nada menos de R$ 84 milhões foram desviados.

Em julho, logo após a limpeza na cúpula do Ministério dos Transportes, o governo
informou que iniciaria a faxina nas 23 superintendências estaduais do DNIT. Mas tudo ficou na promessa. Saiu somente um superintendente, o do Mato Grosso, mesmo assim por vontade própria. Vale lembrar que, em julho, quando mudou o Ministro dos Transportes, das 23 superintendências, 15 registravam problemas, tais como denúncias de corrupção, superfaturamento de obras, fraude em licitações e tráfico de influência.

Na limpeza prometida pela presidente Dilma um dos alvos foi a Companhia Nacional de Abastecimento. Trata-se de um órgão com orçamento anual de investimentos de R$ 2,9 bilhões, presente em todos os estados, fundamental para a formação de estoques reguladores de alimentos. É também uma das estatais mais loteadas pelos partidos da base. Foi dividida entre PMDB, PTB e PT. Mas a faxina na Conab ficou também na promessa. Apesar do escândalo na Agricultura, que derrubou o Ministro e o Secretário Executivo, apenas dois dirigentes da Conab foram afastados. Assim mesmo, um deles por brigas internas e desentendimentos pessoais com o ex-ministro.

O ministro do Turismo enfrentou por longo tempo o processo de fritura e só foi demitido quando nem o governo nem o partido que o indicou tinham como garantir sua permanência no cargo.

Notícias de irregularidades no Ministério das Cidades foram rapidamente abafadas e atualmente o foco das atenções passou a ser o Ministério do Trabalho, cujo titular, segundo o noticiário, abriga, em postos chaves da pasta, boa parte da cúpula do PDT e ainda encontra brecha para turbinar centrais sindicais, impedidas pelo Tribunal de Contas da União de receber dinheiro público, por causa de irregularidades no passado.
Com tantos outros ministérios na fila, sem que nada lhes tenha acontecido, é possível que mais um fique na espera, com a certeza confortadora de que nada também lhe vai acontecer.