Copa, Saúde, Segurança e Educação


Fonte: Mendonça Prado é Advogado, Deputado Federal por Sergipe

Copa, Saúde, Segurança e Educação

Foto: Roberto Tenório

Todos sabem da paixão dos brasileiros pelo futebol. Essa modalidade esportiva está tão vinculada as nossas tradições, que, em todos os lugares do mundo, o Brasil é lembrado em função da notoriedade da nossa seleção, assim como, pelas belas exibições dos nossos jogadores em equipes estrangeiras. O futebol é uma espécie de identificação da nação brasileira.

A forma primorosa com que os nossos craques desenvolvem as suas habilidades futebolísticas nos faz considerar o esporte uma arte esplêndida. Pelé, um gênio, tornou-se tão admirável que passou a ser visto por todos como um rei. Outros nomes conhecidos também ascenderam por meio da desenvoltura nos gramados. Verdadeiras fortunas foram constituídas, transformando alguns meninos, oriundos de famílias paupérrimas, em milionários. Esse esporte, com certeza, tem uma grande importância na vida de inumeráveis concidadãos.

A relação do povo brasileiro com o futebol é tão intensa que beira o fanatismo. Quando alguém se conecta a uma agremiação para torcer, dificilmente muda de posição. Alguns confrontam o conceito de fidelidade partidária com a lealdade dos torcedores aos seus times. O resultado disso é a comprovação de que no Brasil os times são sagrados e os partidos políticos, lamentavelmente, amaldiçoados.

Logo, não há o que se discutir sobre o amor que a maioria dos compatriotas tem pelo futebol. Apesar dessa modalidade ter sido concebida pelos ingleses, os brasileiros tornaram-se mestres e exportadores dos mais brilhantes atletas. Indubitavelmente, essa proeminência motivou as nossas autoridades a realizarem uma copa do mundo em nosso território. Logo, defender essa tese significa angariar simpatias, e conquistar com facilidade o imprescindível apoio popular para vitórias eleitorais. Criticar não é simples.

Então vamos lá. Todos sabem que se exige muito de um país que se propõe a sediar uma copa do mundo. Assim, o Brasil tem investido fortemente na construção de moderníssimos estádios em lugares, cujos times locais não são tão bons. Por isso, há quem diga que após a copa, esses investimentos não serão compensados com excelentes apresentações daquelas equipes que fazem os campeonatos estaduais. Essas observações provocam uma séria reflexão sobre a aplicação dos recursos públicos e as condições de vida da população.

Será que o Brasil não tem outras prioridades?

O orçamento da União passou a priorizar os investimentos imprescindíveis à realização de tão grandioso evento. Em contrapartida, a sociedade brasileira sente as consequências da falta de recursos para setores considerados essenciais como saúde, segurança e educação. São visíveis as péssimas condições dos hospitais públicos, a falta de equipamentos e até mesmo de medicamentos para atender os cidadãos. Os profissionais médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, agentes de saúde, bem como os servidores administrativos são vítimas de uma iníqua política de achatamento salarial. A saúde, portanto, deve ser estabelecida com uma prioridade.

A sensação de insegurança e os altos índices de violência registrados no país, somados ao discurso eloquente dos governantes, informando que não têm dinheiro para investir no setor, causam angústia e preocupação a todos. O Brasil torna-se, a cada dia, um torrão dos criminosos. A droga avança assustadoramente, arrebatando o cérebro dos nossos jovens e comprometendo o futuro. Os estabelecimentos penais estão lotados e sem nenhuma condição para recuperar os internos.

Quem ingressa no sistema prisional parece entrar em uma universidade do crime. Os trabalhadores de segurança e os agentes penitenciários estão insatisfeitos com a falta de reconhecimento dos gestores e as precárias condições de trabalho. Ao cidadão brasileiro só resta precaver-se para não sofrer as consequências da insegurança. Assim, a segurança também deve ser estabelecida como prioridade.

A educação, setor mais importante para uma nação que sonha em alcançar o primeiro mundo, caracteriza-se pela deterioração. Os estabelecimentos de ensino pelo interior do Brasil são desprovidos de condições básicas. Estudos recentes revelam a ausência de sanitários e água para o consumo humano, algo elementar para a permanência de pessoas em um determinado lugar no mundo moderno. Em relação ao uso de meios tecnológicos e outros instrumentos já empregados em países mais evoluídos, é preferível não comentar. Não obstante, essas constatações, o mesmo governo que investe bilhões em estádios de futebol afirma não ter recursos para recuperar e construir novas escolas. Os professores brasileiros são mal remunerados e as condições de trabalho são aviltantes. Dessa maneira, a também educação deve ser estabelecida como prioridade.

É claro que promover uma copa do mundo é algo fantástico. Todos voltam as suas atenções para esse extraordinário espetáculo. O interesse por um evento dessa natureza aumenta ainda mais quando o palco dos enfrentamentos entre as melhores seleções do planeta é também o berço dos atletas mais geniais. O Brasil se tornará, após esse acontecimento, muito mais conhecido e destinatário de novos investimentos. Mas, o Brasil não tem o direito de edificar o que a FIFA determina, destruindo a saúde, a segurança e a educação. Essas são as nossas verdadeiras prioridades.