O PIB, o investimento e a construção

02 de Setembro de 2019

Artigo originalmente publicado em diariodopoder.com.br

Há boas e más notícias no PIB do 2º trimestre. A variação de 0,4% em relação ao 1º trimestre veio acima da previsão dos economistas, que apostavam na metade disso, mas está aquém do necessário para a retomada do emprego.

O número levemente positivo nos tirou de uma recessão técnica, definida como a constatação de 2 trimestres consecutivos no vermelho. Alguns acham que, pela magnitude dos números tratados, esse aspecto é meramente simbólico. Entretanto, sabemos que símbolos importam e que, no caso de ocorrência de outro número negativo, seguindo o do 1º trimestre deste ano, a palavra recessão viria acompanhada de fortes pressões sobre o governo, inclusive no sentido de abandonarmos o caminho de mais responsabilidade fiscal que temos adotado desde que o PT saiu do poder.

Ainda olhando pelo lado bom, também tivemos o primeiro crescimento trimestral do setor de construção civil em 5 anos. Isso mesmo! Trata-se da 1ª alta trimestral após 20 trimestres de queda. Isso ajuda a explicar outro dado alentador: o investimento cresceu acima do esperado. Mas vejam que os dados positivos acima também são reveladores de nossos principais problemas.

O setor de construção, intensivo em mão de obra, está 30% aquém do que se observava antes do início da recessão, 5 anos atrás. Na verdade, conforme demonstra recente artigo da FGV/Ibre, esse setor voltou aos níveis de 2009. Isso tem reflexos no investimento, que está 27% abaixo do nível pré-crise.

Nossa taxa de investimento, encontra-se em seus mínimos históricos, de cerca de 15%. Países com grau de desenvolvimento semelhante – China e Índia – têm taxa de investimento superior a 30%. Isso garante a eles um crescimento elevado, por longos períodos e sem fortes pressões inflacionárias. É, sem dúvida, o melhor antídoto contra os ‘voos de galinha’ que observamos por aqui, além de ser condição necessária para uma queda mais acentuada do desemprego.

Esse verdadeiro cenário de terra arrasada no que se refere aos investimentos tem raízes claras. O setor público, não só o federal, está com as contas em frangalhos. A escalada de irresponsabilidade fiscal observada nos anos petistas ainda cobra sua conta, trazendo o investimento estatal para patamares nunca antes vistos. Do lado privado, a cautela prevalece, sendo necessário tocar a agenda de reformas de forma a recuperar a confiança e o chamado ‘espírito animal’ dos empreendedores. Além das reformas fundamentais, como a Previdenciária e a Tributária, precisamos criar um ambiente de mais segurança jurídica, algo fundamental para o investimento de longo prazo, com especial destaque para a infraestrutura.

Diante do exposto, uma forma de sairmos da estagnação econômica e gerarmos os milhões de empregos necessários é focarmos no setor de construção, tanto a pesada, voltada para a infraestrutura, quanto aquela destinada a cobrir o imenso déficit habitacional observado aqui. Isso passa por recursos públicos, um tanto quanto escassos no momento, mas, principalmente, por parcerias com o setor privado, que requerem, além da boa gestão e de um desenho adequado para um profundo programa de concessões, a garantia de mais segurança jurídica em negócios que envolvem grandes somas e prazos dilatados.

Os dados recém divulgados pelo IBGE nos permitem respirar aliviados, mas não há nada o que comemorar numa economia que deve crescer em 2019 meros 0,8%. Há muito o que fazer, principalmente quando se leva em consideração que o cenário externo fica cada vez mais desafiador, tendo em vista a tendência de um menor crescimento mundial, além dos sérios problemas enfrentados pela Argentina, nosso vizinho e importante parceiro comercial.

Líder do Democratas na Câmara dos Deputados, Elmar Nascimento, 49 anos, é advogado, eleito pelo Estado da Bahia, está em seu segundo mandato como deputado federal.